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A ajuda de Manuel Vicente e o namoro à Unitel

A entrada da Gemcorp no projeto da refinaria de Cabinda terá contado com o empurrão do ex-presidente da Sonangol, que assim ganhou pontos junto de João Lourenço. Do outro lado do fio já há empresas a perguntarem o preço da Unitel.

A forma como João Lourenço mantém Manuel Vicente numa redoma, não dando espaço para que o ex-vice-presidente da República seja levado na enxurrada do combate à corrupção, tem sido alvo de muita especulação. Existem justificações para todas as teorias, sendo que a oficial é de que Manuel Vicente não é julgado no caso de corrupção que transitou de Portugal para Angola, visto que goza de um período de imunidade de cinco anos que está a contar desde 2018.

Existem, contudo, sinais de que o antigo presidente da Sonangol tem correspondido às exigências do Estado relativas ao repatriamento de capitais, ainda que de forma indireta. Um deles é o facto de a Gemcorp ter estabelecido uma parceria com a Sonangol, através da qual irá financiar a construção de uma refinaria em Cabinda, um projeto avaliado em 500 milhões de dólares.

A Gemcorp substituiu no projeto a United Shine e é tida como uma empresa com ligações a Manuel Vicente, sobretudo através do seu CEO, Atanas Bostandjiev, que antes liderou o banco de investimento russo VTB Capital. A Gemcorp esteve, aliás, presente na cimeira Rússia-África que teve lugar em Sochi, em novembro do ano passado, tendo então acordado criar um mecanismo de financiamento público russo a países africanos no valor de cinco mil milhões de dólares. Ou seja, Manuel Vicente terá tido um contributo relevante para desbloquear a refinaria de Cabinda

Acresce que Manuel Vicente também já entregou ao Estado angolano a posição que detinha no Banco Económico (antigo BESA) através da Lektron, em que era parceiro do general Hélder Vieira Dias (“Kopelipa”) e os seus conhecimentos da teia financeira que foi urdida durante o consulado de José Eduardo dos Santos são úteis a João Lourenço.

Do outro lado do fio

Angola tem estado no radar internacional, sendo que a deslocação do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, foi a face mais mediática destas movimentações. Mas outras, já realizadas ou prestes a acontecer, enquadram-se no que se convencionou designar como diplomacia económica. Um dos alvos destas ações é a Unitel.

A empresa de telecomunicações é muito apetecida, sobretudo após a Sonangol ter assumido o controlo de 50% da empresa, sendo que o Estado, por via do arresto da participação de Isabel dos Santos, detém outros 25%. É ainda uma oportunidade para a Sonangol obter uma receita significativa, saindo de uma atividade não estratégica.

Entre os interessados na aquisição da Unitel surgem a inglesa Vodafone e a francesa Orange e é também nesta perspetiva que devem ser analisadas as recentes visitas inglesas, primeiro do ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido para África, Andrew Stephenson, e já este mês de Lindsay Northover, enviada do primeiro-ministro britânico para o Comércio com Angola.

França também aposta forte e Emmanuel Macron tem agendada para maio uma deslocação a Luanda relativamente à qual o embaixador gaulês em Angola, Sylvain Itté, diz ser “aguardada com muita expectativa tanto do lado angolano quanto do francês” . NEGOCIOS

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