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O ano dos desafios para João Lourenço se consolidar no poder

Combater a corrupção, corrigir as assimetrias sociais e diversificar a economia serão as prioridades do novo presidente angolano.

Algo tem de mudar para que tudo continue como está. O aforismo de uma das personagens do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, parece encaixar na perfeição à conjuntura angolana. Mas, pelo meio, algo está realmente a mudar. Devido à crise resultante da queda dos preços do petróleo e, em consequência, à necessidade de rever o modelo económico assente neste. Até porque, para começar, Angola tem de modernizar as infra-estruturas ligadas à indústria petrolífera. Segundo maior produtor africano de petróleo, o país gastou mais de cinco mil milhões de dólares em 2016 na importação de produtos petrolíferos refinados, devido à escassa capacidade de refinação própria.

Este é um primeiro desafio a que o novo presidente, João Lourenço, tem de dar resposta. Associado a esta questão, está o problema da ausência de reais e eficazes empresas nos setores da indústria e da agricultura. Este setor tem potencialidades infinitas e deve ter-se presente que Angola é um dos quatro principais países extratores de diamantes.

O FMI aponta para um crescimento de 1,3% em 2017 (e foi praticamente nulo em 2016). Para 2018, as expectativas são positivas, antecipando-se um crescimento entre os 3,4% e os 4%, consoante as previsões, apontando-se igualmente para a desaceleração da inflação, que tem estado acima dos 20% no ano que finda, e que foi de 42% em 2016. Este quadro reflete um outro desafio importante: o crescimento económico tem de estar acompanhado de instrumentos para corrigir as brutais assimetrias da sociedade angolana. Dados recentes mostram que 25% da população ativa está no desemprego e cerca de 70% dos angolanos vivem com menos de dois dólares por dia, ou seja, abaixo do limiar de pobreza.

Um dado fundamental para corrigir esta situação é a utilização como capital produtivo dos fundos na posse das elites do país, e que continuam a ser canalizados para o exterior. Um estudo da Universidade Católica de Angola mostra que mais de 170 mil milhões de euros foram levados para o estrangeiro desde o fim da guerra civil, em 2002, até 2015. Neste montante, contabilizam-se quer os movimentos de empresas quer de particulares, o que deixa claro do lado empresarial que Angola não é um local atrativo para o investimento. Talvez até pela inexistência de mão-de-obra suficientemente qualificada. Neste ponto reside outro dos grandes desafios da nova governação. Se há acesso a ensino de qualidade para as elites, o sistema educativo necessita de profundas mudanças para responder às necessidades da economia e da população.

Ainda antes de ser eleito, João Lourenço reconheceu, de forma lapidar, o desafio que o aguardava: "Agostinho Neto deu a independência a Angola, Eduardo dos Santos trouxe-nos a paz. Eu tenho de melhorar a economia do país." E para melhorar a economia angolana o novo presidente não pode deixar de enfrentar a questão da corrupção, unanimemente considerado o principal problema a bloquear o desenvolvimento. Falando nesta semana em Luanda, o procurador-geral Hélder Pitta Gróz disse estarem em estudo formas de combate "mais acérrimo" à corrupção e branqueamento de capitais. E sintetizou a nova atmosfera resultante de uma série de decisões já tomadas pelo presidente: "O país tem vindo a receber uma mensagem política muito forte no sentido de mudança."

Em menos de três meses, o presidente afastou a grande maioria dos cargos de topo na administração pública e no setor empresarial do Estado, gerando fortes expectativas.

Quando tomou posse, a 26 de setembro, João Lourenço deixou um aviso: "Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre de mais que não possa ser protegido." O próximo ano irá mostrar como está a cumprir este desígnio e a melhorar a economia. Na resposta a estes desafios, estará também a capacidade de o novo presidente consolidar o seu poder em Luanda e romper com o passado.

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