Divergências na comissão de reconciliação em Angola são "continuação da luta" - Fundação 27 de Maio

O presidente da Fundação 27 de Maio considerou hoje as divergências entre os partidos angolanos UNITA, na oposição, e MPLA, no poder, na comissão de reconciliação das vítimas de conflitos políticos como “uma espécie de continuação da sua luta”.

Em causa está a apresentação, nos últimos dias, de reportagens da Televisão Pública de Angola (TPA) nas quais foram exibidas supostas ossadas de vítimas de dirigentes da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), maior partido da oposição angolana, no âmbito de trabalhos da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas de Conflitos Políticos (Civicop).

Em reação, o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, acusou os serviços de informação angolanos de sequestrar a Civicop, considerando a apresentação das supostas ossadas de vítimas de dirigentes da organização política fundada por Jonas Savimbi como uma “farsa”, “um golpe de teatro”, destinado a desviar as atenções do processo de destituição do Presidente da República, João Lourenço, anunciado pela UNITA.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Fundação 27 de Maio, Silva Mateus, membro da Civicop, considerou que a UNITA está dentro do seu direito de reclamação, porque os seus representantes na comissão não foram avisados.

“O que se está a se verificar é uma espécie de continuação da luta entre o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola] e a UNITA. O Governo do MPLA tenta impingir questões à UNITA e ao falecido Savimbi, quando é já uma outra direção, são coisas passadas”, referiu.

Silva Mateus desaconselha a UNITA a abandonar a Civicop, defendendo a sua presença para “fazerem pressão e discutir essas coisas, em pé de igualdade”.

“Essa questão de abandonar a comissão, nós não concordamos, isso é como se diz em política: fazer política com cadeira vazia. Nós também temos os nossos problemas, mas temos estado a aguentar”, frisou.

Segundo Silva Mateus, a Fundação 27 de maio vê essa situação “como uma luta interna entre o MPLA e a UNITA”, o que “não ajuda” o processo de reconciliação entre os angolanos, apelando neste momento à resolução dessa questão “com serenidade, discernimento, calma e interação” entre as partes, sublinhando que a fundação “não se mete nesta luta”.

“Uns mataram, outros não mataram, uns fizeram, outros não fizeram, mas no cômputo geral todos mataram”, afirmou.​​​​​​​

Na terça-feira, ​​​​​​​Adalberto Costa Júnior condenou a instrumentalização da TPA pelos serviços de “inteligência” do regime angolano, suportado pelo MPLA, acusando o chefe do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE), Fernando Miala, de se servir da comissão no âmbito de uma “agenda pessoal” de ascensão política.

O líder da UNITA sugeriu a criação de uma Comissão de Verdade e Reconciliação, à semelhança da África do Sul, que investigou crimes cometidos durante o regime do ‘apartheid’, de março de 1960 até maio de 1994, “sem gabinetes de propaganda”.

“A UNITA condiciona a sua participação na Civicop ao retomar dos propósitos da sua criação e ao reabraçar da metodologia aprovada para o seu funcionamento. Paz e reconciliação”, disse ainda Adalberto Costa Júnior.

A Civicop foi criada em 2019 pelo Presidente angolano, João Lourenço, para homenagem às vítimas dos conflitos políticos que ocorreram em Angola entre 11 de novembro de 1975, da da independência, e 04 de abril de 2002, ano em que o país alcançou a paz.

Em 27 de maio de 1977, uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves – então ex-ministro da Administração Interna desde a independência (11 de novembro de 1975) até outubro de 1976 –, foi violentamente reprimida pelo regime de Agostinho Neto.

Seis dias antes, em 21 de maio, o MPLA expulsara Nito Alves do partido, o que levou o antigo ministro e vários apoiantes a invadirem a prisão de Luanda para libertar outros simpatizantes, assumindo paralelamente o controlo da estação da rádio nacional, ficando conhecido como “fracionistas”.

As tropas leais a Agostinho Neto, com apoio de militares cubanos, acabaram por estabelecer a ordem e prenderem os revoltosos, seguindo-se depois o que ficou conhecido como “purga”, com a eliminação das fações, tendo sido mortas cerca de 30 mil pessoas, na maior parte sem qualquer ligação a Nito Alves, tal como afirma a Amnistia Internacional em vários relatórios sobre o assunto.

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